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MARCAS DO CAMINHO

GA9: A Essência da Liberdade

Da Essência da Verdade

terça-feira 7 de março de 2017, por Murilo Cardoso de Castro

              

Esboço de tradução brasileira de Marcos Paulo Lopes Vieira da tradução em espanhol de Helena Cortés e Arturo Leyte, em Hitos, Alianza, Madrid, 2000, pp.151-171.

              

Temos então que a indicação que chama à atenção sobre a conexão essencial existente entre   a verdade   como conformidade e a liberdade   quebra e mina estes prejuízos, supondo desde sempre que estejamos dispostos a modificar o nosso modo de pensar  . A meditação sobre a conexão essencial entre a verdade e a liberdade nos induz a seguir a pergunta pela essência do homem   desde uma perspectiva que nos garanta a experiência de um fundamento   oculto   essencial do homem (do Da-sein  ), de tal modo que nos translade para o âmbito originariamente essencial da verdade. A partir daqui também se mostra que a liberdade somente é o fundamento da possibilidade   interna da conformidade, porque recebe a sua própria essência desde a essência mais originária da única verdade essencial. Em um primeiro momento a liberdade foi definida como liberdade para o que se manifesta em algo aberto  . Como esta essência da liberdade há de ser pensada? O manifesto  , ao que se adéqua enquanto conforme   a um enunciado   representador, esse está sempre aberto em um modo de se comportar que se mantém aberto. A liberdade com respeito   ao manifesto de um âmbito aberto permite que o ente   seja sempre esse ente que precisamente é. A liberdade se desvela agora como um deixar  -ser o ente.

Falamos habitualmente de um deixar-ser   ou deixar estar quando, por exemplo, nos abstemos de realizar um projeto   planejado. Quando "deixamos que algo seja" ou deixamos algo ser, isto significa que já não nos preocupamos com o assunto nem damos mais por ele. Assim sendo, o deixar algo ser tem o sentido   negativo de passar ao largo, renunciar a algo, isto é, no sentido da indiferença e até do desinteresse.

Destarte, a expressão aqui utilizada e necessária, "deixar-ser o ente", não pensa no desinteresse ou na indiferença, mas em algo completamente contrário a isso. Deixar-ser é o colocar-se no ente. Naturalmente, isto tampouco se entende como o mero colocar em marcha, a proteção, o cuidado   e a planificação do ente que sai ao encontro ou que se busca. Deixar-ser, isto é, deixar-ser o ente como esse ente que é - significa colocar-se no aberto e em sua abertura, uma abertura dentro da qual se encontra todo ente a ponto de levá-la, por assim dizer  , consigo. Este âmbito aberto foi concebido em seus inícios pelo pensar ocidental como alethéia, o não ocultamento. Quando traduzimos aletheia   com o termo "desocultamento" em lugar   do termo "verdade", esta tradução não é somente "mais literal", mas contém também a indicação de voltar a pensar ou pensar de um outro modo o conceito   habitual de verdade, não mais no sentido da conformidade do enunciado, mas dentro desse âmbito ainda não compreendido do desvelamento e des-encoberto do ente. Colocar-se no desocultamento do ente não é perder-se nele, mas é um retroceder diante do ente a fim de que este se manifeste no que é e tal como é, a fim de que a adequação representadora extraia dele a sua norma. Enquanto um semelhante deixar-ser, se expõe ao ente como tal, transladando ao aberto todo modo de se comportar. O deixar-ser, isto é, a liberdade, é em si mesma ex-poente, ex-sistente  . A essência da liberdade vista desde a essência da verdade, se revela como um expor-se no desocultamento do ente.

A liberdade não é somente o que o comum entendimento   quer entender   sob esse nome: o capricho ocasional que a cada momento de escolha se inclina ora para um lado ora para o outro. A liberdade não é a falta de travas que permite poder fazer ou não fazer algo. A liberdade, porém, tampouco é a disponibilidade para algo exigido e necessário (e, portanto, de algum modo, para o ente). A liberdade é, antes de tudo isso (antes da liberdade "negativa" ou "positiva") esse colocar-se no desencobrimento   do ente como tal. O próprio desocultamento se preserva no colocar-se ex-sistente pelo qual a abertura do aberto, ou, o que é o mesmo, o "aí", é o que é.

No Ser-aí, devolve-se ao homem o fundamento essencial e durante muito tempo não fundamentado graças ao qual o homem pode ex-sistir. Aqui, "existência" não significa existentia   no sentido do aparecer e do "Dasein" (existência enquanto ser simplesmente dado  ) de um ente. "Existência", todavia, tampouco significa aqui, no modo "existenciário", o esforço moral do homem por seu si-mesmo edificado sobre uma constituição corporal e anímica. A ex-sistência, que tem suas raízes na verdade como liberdade, é a ex-posição no desocultamento do ente como tal. Ainda incompreendida, e nem sequer necessitada de uma fundamentação essencial, a ex-sistência do homem histórico começa no instante   a partir do qual o primeiro pensador se põe à mercê do desocultamento do ente, perguntado o que seja o ente. Desde esta pergunta é que se experimenta, pela primeira, o desocultamento. O ente, em sua totalidade  , se desvela como physis  , a "natureza  ", que aqui ainda não alude a um âmbito especial do ente, mas, ao ente como tal em sua totalidade, concretamente com o significado   de um advir   surgindo e brotando à presença. A história   começa somente quando o ente é elevado e preservado expressamente em seu desocultamento e quando essa preservação é concebida desde a perspectiva da pergunta pelo ente como tal. O inicial desencobrimento do ente em sua totalidade, a pergunta pelo ente como tal e o início da história ocidental são o mesmo e são simultâneos em um "tempo" que, sendo ele mesmo incomensurável, abre pela primeira vez o aberto, isto é, a abertura, para qualquer medida.

Todavia se, enquanto deixa-ser o ente, o Ser  -aí ex-sistente libera o homem para sua "liberdade", à medida que é esta a que em primeiro lugar e em geral o oferece a possibilidade (o ente) de escolha, como também o ameaça com a constringência ao necessário (o ente), tem-se com isso então que o capricho humano não dispõe da nem sobre a liberdade. O homem não a "possui" como quem possui uma propriedade, mas, muito antes, ocorre o contrário: a liberdade, o Ser-aí ex-sistente e desencobridor, possui o homem de um modo tão originário que, é ela [a liberdade] a única que concede ao homem uma humanidade que se relacione com o ente em sua totalidade, que fundamenta e caracteriza pela primeira vez toda a história. Somente o homem ex-sistente é histórico. A natureza não tem história.

Entendida deste modo, enquanto deixar-ser o ente, a liberdade consuma e realiza a essência da verdade no sentido do desocultamento do ente. A "verdade" não é uma característica de uma proposição conforme enunciada por um "sujeito  " humano acerca de um "objeto  " e que logo "valha" não se sabe em que âmbito, mas a verdade é esse desencobrimento do ente mediante o qual se apresenta uma abertura. Nesse âmbito aberto se expõe todo modo de se comportar humano e sua atitude. Por isso, o homem é no modo da ex-sistência.

Posto que todo modo de se comportar humano de algum modo se mantém sempre aberto e se acomoda àquilo em relação com o qual se comporta, a contenção e compostura do deixar-ser, isto é, a liberdade, deve ter trazido consigo como dote a indicação interna de adequar o representar ao ente correspondente. Dizer agora que o homem ex-siste significa que a história das possibilidades essenciais de uma humanidade histórica está preservada para ele no desencobrimento do ente em sua totalidade. É a partir do modo como se apresenta a essência originária da verdade que surgem as decisões simples e singulares da história.

Como, de todos os modos, a verdade é em sua essência liberdade, eis porque também, em seu deixar-ser o ente, o homem histórico também pode não deixá-lo ser como esse ente que é tal como é. Quando isto ocorre, o ente se encontra oculto e dissimulado. As aparências tomam o poder. Nelas se torna patente a inessencialidade da verdade. Porém, enquanto essência da liberdade, a liberdade existente não é uma propriedade do homem, mas o homem ex-siste somente enquanto possessão desta liberdade e somente desse modo se torna suscetível de história, por isso a inessencialidade da verdade pode tampouco surgir a posteriori da simples incapacidade ou negligência do homem. Pelo contrário, a não-verdade tem que proceder da essência da verdade. É somente porque verdade e não-verdade, em essência, não são indiferentes uma à outra, mas se pertencem mutuamente, eis porque uma proposição verdadeira pode aparecer como a mais violenta das oposições com respeito a correspondente proposição não verdadeira. Por isso, a pergunta pela essência da verdade chega somente até o âmbito originário do perguntado por ela quando, partindo de um olhar prévio para a plena essência da verdade, também inclui no desvelamento da essência a meditação acerca da não-verdade. As explicações sobre a inessencialidade da verdade não são apenas algo que simplesmente se acrescenta a posteriori para rechear alguma coisa   oca, mas o passo decisivo para uma adequada colocação da pergunta pela essência da verdade. Todavia, como podemos apreender   a inessencialidade na essência da verdade? Se a essência da verdade não se exaure na conformidade do enunciado, então a não-verdade pode menos ainda se equiparar com a não conformidade do juízo.


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