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A Morte

Dastur: A morte e o morrer

quarta-feira 31 de maio de 2017

        

Se ninguém pode atenuar ou anular a responsabilidade   do outro sobre sua própria morte   e não pode, no sentido   estrito, morrer   pelo outro, isso implica que o morrer não é somente uma determinação extrínseca da existência, um "acidente  " da substância "homem  ", mas, ao contrário, um atributo essencial deste. A relação que o ser   humano mantém com o morrer é então constitutiva de seu próprio ser e primeira no que se refere a todas as suas outras determinações. É o que leva Heidegger, em   um curso em que ele aborda pela primeira vez a análise do ser-para-a-morte  , a afirmar que a certeza   do dever-morrer é o fundamento   da certeza que o Dasein   tem de si mesmo  , de modo   que não é o cogito   sum  , o "eu   penso, eu existo", que constitui a verdadeira definição do existir do Dasein, ao contrário de sum moribundus, "sou moribundo", "o que está morrendo", o "destinado a morrer" dando somente seu sentido ao "sum", ao "eu existo".

A morte não pode mais então aparecer como a interrupção da existência, como o que determinaria o fim   desta de maneira externa, mas como o que constitui essencialmente a relação do Dasein com seu próprio existir, o que Heidegger chama existência. Considerar   que essa relação não pode lhe acontecer   a não ser pela mediação da morte dos outros e não pela angústia quanto ao que diz respeito   à sua própria morte é se atribuir, por antecipação, o que se trata de estabelecer. Na verdade  , não podemos nos comover com a morte do outro, a não ser se somos já um si, e se essa estrutura   de receptividade que é a ipseidade  , o si-mesmo, já esteja ali, e ela não pode sê-lo senão naquilo que concerne a um próprio dever-morrer. A hipótese, por mais interessante que seja, de um "luto originário" que pretenderia desviar a relação com o si do acontecimento   da morte do outro estaria condenada a ver no si o simples resultado da operação de um outro, que seria necessário então, como o faz com inteira coerência Lévinas, considerar como o "Inteiramente Outro" que, em sua infinidade, é "anterior" à finitude   e à passividade de uma ipseidade "refém". Mas, ao mesmo tempo, ela seria compreendida como uma representação da sujeição, isto é, como um "sujeito  " e uma "consciência exagerada do eu", e não como   o que os torna possíveis e que Heidegger chama exatamente de ipseidade, a qual só se constitui na aceitação do Inteiramente Outro que é também a morte. Mas, ao contrário de Deus  , o Inteiramente Outro infinito do qual o sujeito não é "refém" a não ser porque está separado dele, do Inteiramente Outro do existente, do Nada   que é a morte, o Dasein que não é um "sujeito", mas um estar aberto   a si mesmo e ao outro, a relação, e é somente essa relação que pode ser assumida.

Eis a razão pela qual não é necessário identificar a morte e o morrer, como Heidegger expressa sua preocupação. A morte é, na verdade, num vasto sentido, um fenômeno que faz parte da vida  . O Dasein pode também ser considerado como um simples vivente, por exemplo, enquanto objeto   das ciências biológicas, e há, consequentemente, toda uma pesquisa   sobre a morte que pode se desenvolver nesta perspectiva. Ela não o pode, contudo, a não ser que o pesquisador já saiba, enquanto Dasein, o que é a morte. Esta não pode, na realidade  , apresentar-se como um dado   biológico e tomar a forma de um acontecimento objetivo tendo lugar   no mundo   senão a partir do se-saber   mortal do Dasein. Se este não tinha já por si mesmo uma relação com a morte, nenhum acontecimento do mundo poderia jamais colocá-lo em relação com ela. O que caracteriza essencialmente o Dasein é a relação com sua própria morte, a qual não pode nunca tornar-se um "acontecimento do mundo", já que ela constitui justamente o fim deste. Se, segundo Heidegger, o simples vivente, ou seja, o animal  , pode morrer, no sentido de "chegar a seu fim" (verenden  ), é precisamente porque esse fim não determina intrinsecamente seu existir, ao qual não temos, analisando por outro ângulo, senão um acesso   negativo, a partir do momento em que a "vida" sendo   sempre para nós a vida humana, isto é, uma vida capaz de se interpretar, de se compreender   e de se assumir por si mesma, não podemos representar   a vida do "simples" vivente a não ser por um esforço de abstração. Quando a morte do Dasein aparece sob a representação de um acontecimento do mundo, como morte dos outros, falaremos de "falecimento", no sentido de saída para fora da vida (ableben  ), mas não se poderá dizer   do Dasein o que foi dito do animal, ou seja, que ele chega a seu fim, pois seria considerar que sua morte deriva de uma artificialidade puramente externa, enquanto o Dasein não pode, na realidade, falecer, isto é, sair da vida, a não ser enquanto tem intrinsecamente relação com sua própria morte e que ele seja, desse modo, suscetível de morrer.

Para Heidegger, não se trata tanto de reservar ao homem, unicamente, o privilégio e a dignidade de morrer e de consagrar assim, recomeçando de uma nova maneira, a superioridade que a tradição filosófica sempre reconheceu ao homem sobre o animal, quanto pôr em evidência a origem   existencial   do conceito   de morte. O que caracteriza, na verdade, a existência é, como já foi ressaltado, que nenhuma de suas determinações possa lhe ser exterior  , o que implica que é, para o Dasein, rigorosamente impossível jamais poder considerar um ponto   de vista exterior sobre si mesmo, a partir do qual sua existência se lhe apresenta como um acontecimento tomando lugar   no mundo. E, no entanto, diríamos, o que ele faz constantemente quando se considera a si mesmo como o "objeto" das ciências da natureza  , da biologia  , por exemplo, e como o das ciências humanas, da psicologia  , da sociologia ou da antropologia  . De forma alguma é questão para Heidegger negar a possibilidade   e a validade   de uma biologia, de uma psicologia, de uma sociologia e de uma antropologia da morte, mas simplesmente de mostrar   sobre qual pressuposto despercebido elas repousam; em outras palavras, sobre a compreensão que o Dasein tem de si mesmo como um mortal. É através de sua própria mortalidade que o Dasein pode somente ter acesso à morte "em geral", o que é menos o sinal   de uma "superioridade" do homem que de sua fundamental impotência, já que lhe é assim impossível ter acesso direto a uma outra morte além da sua própria.

Por outro lado, é dessa fundamental impotência que ele tenta escapar quando pretende ver na morte um "acidente" que acontece certamente "todos os dias" mas somente aos outros, e quando ele identifica de maneira inautêntica o morrer com o simples falecimento. Pois, fazendo da morte um acontecimento que lhe sobreviria do exterior e que lhe aconteceria a partir do mundo, o Dasein se arma de uma segurança contra ela, desde que, enquanto ela não está ali, ele pode se acreditar imortal. É dessa imortalidade provisória que vivemos a princípio e o mais das vezes, o que implica que a vida humana não pode se estender largamente a não ser na medida em que ela se esquiva da morte e em que é capaz de transformar em acontecimento futuro   aquilo que é o próprio fundamento da existência. Não seria necessário, com efeito  , ver na descrição que Heidegger faz do estar cotidiano   para a morte90 uma condenação unilateral da "inautenticidade  " e da "alienação" do devenir   estranho   a si mesmo que ela implica para o Dasein. Muito ao contrário, o fato   de que o Dasein se desconheça a si mesmo e esconda de si sua própria mortalidade não somente constitui um atestado desta, mas essa "fuga  " diante da morte é, além do mais, necessária para sua manutenção na existência. Não há vida humana durável a não ser na medida em que esta mantém o respeito pela morte, o que exige sua "banalização", e eis aí, sem dúvida, o que distingue fundamentalmente, no final das contas, o homem do animal, pois este não tem necessidade   de domar a morte nem de ajustar-se a ela, precisamente porque vive uma vida absolutamente vivente, pela qual o ser humano pode experimentar nostalgia  , mas que nela não saberia tomar parte.

Heidegger é, desse modo, levado a definir o morrer como termo que designa a maneira de ser   pela qual o Dasein se refere à sua morte. Neste sentido, o morrer é uma definição do que é a vida humana, em outras palavras, um "existir a morte" ou uma mortalidade. No sentido mais exato, só os humanos são "mortais", pois só eles são "capazes" de se referir à sua própria morte e de fazer "existir", assim, a morte. É de um outro ponto de vista que o idealismo   alemão, com Novalis   e Hegel  , já tinha percebido claramente, quando via no suicida a capacidade de dar a si mesmo a morte, a origem da humanidade. Pois essa interrupção, esse corte radical que é a morte, o fim do existir, o ser pensante não se refere a esse ponto como um limite   externo, mas, ao contrário, como um fim interno, a partir do qual seu próprio ser-no-mundo   ou seu próprio ser-na-vida torna-se possível: "O findar no qual se pensa no caso da morte", escreve Heidegger, "não significa um estar no fim do Dasein, mas um estar para o fim do existente. A morte é uma maneira de existir que o Dasein assume desde o instante   em que é: ’A partir do instante em que um homem vem à vida, ele já é bastante velho para morrer’."


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