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MEDITAÇÃO

GA66: 95. ser-aí (Da-sein)

XXVI. Uma reunião do meditar

sábado 10 de junho de 2017

        

Casanova

O ser  -aí permanece incomparável, não admite nenhum aspecto sob o qual pudesse ser subsumido como algo   conhecido.

O ser-aí interrompe toda tentativa de explicação; na clareira   que ressurge abissal e tranquilamente, a explicação (cálculo) não pode manter mais em   parte alguma a pretensão a uma captação do ser; toda exposição ao elemento maquinacional perdeu o fundamento   e o âmbito de consistência. A explicação não significa mais nada  , sim, ela só continua se enredando no não ente   e ainda retém, assim, uma duração em si   arrastada há muito tempo; e isso apesar de uma outra explicação já ter deixado de um outro modo   a verdade   se tornar o tempo  -espaço do ente.

Como é que o ser-aí pode chegar algum dia a ser “explicado"? Ele não pode ser expedido nem mesmo como inexplicável.

É preciso pensar   o ser-aí apenas em termos da história   do seer: a fundação, que é apropriada em meio ao acontecimento   pela essência do seer, da verdade que lhe é própria; e como a fundação insistentemente o saber   do seer enquanto acontecimento apropriativo.

Por isso, apesar de à distância, de qualquer modo decididamente a conexão fundamental entre   ser-aí e “compreensão de ser”.

Ser-aí em aspecto algum uma determinação de um ente, nem de um objeto   nem de um sujeito  , nem em geral de um ente pensado de um modo qualquer.

Ser-aí unicamente pertencente à essenciação do seer, que abandonou a entidade   e ganha voz   e saber a partir de sua verdade.

Por isso, o ser-aí não pode ser previamente encontrado e exposto junto a um ente, nem junto a um ente presente-à-vista qualquer, nem junto ao homem  ; jamais pode ser mostrado e ainda menos “vivenciado” objetivamente. Desse modo, o “ser-aí” só pode ser pensado desde o início “hermeneuticamente”, isto é, apenas como o projetado de um projeto   insigne  , a saber, do projeto do ser com vistas ao seu sentido  , isto é, com vistas à sua verdade como clareira.

Portanto, o ser-aí também nunca pode ser deduzido de um projeto do ente na totalidade  , que precisa se manter de uma forma qualquer conforme   com a representação metafísica.

Aquele projeto do seer, porém, lança aquele mesmo que joga concomitantemente na clareira aberta, na qual aquele que joga se reconhece como apropriado em meio ao acontecimento. Esse projeto que arrasta consigo e transpõe realiza em si uma transformação   essencial daquele que joga, na medida em que esse se chama “homem”.

A custódia para a verdade do ser se inicia.

Por que, porém, o ser-aí é concebido como “temporalidade  "? Porque o aí como clareira se torna de início visível na essenciação do tempo-espaço — até mesmo a partir da metafísica, e, em verdade, em seu começo. Nesse contexto, “tempo” e “espaço” não têm em vista o “lugar  ” e a “sucessão” da série dos agoras, mas antes disso a clareira essenciante e una do ser. Todavia, o fato   de o ser se encontrar em tal clareira é atestado pela interpretação do ser como ousia   — presença e constância. Com certeza  , isso só pode e já pode ser inquerido a partir da pergunta   fundamental acerca da verdade do ser; a inquirição da “temporalidade” da ousia já se encontra fora da metafísica.

Temporalidade do aí designa a clareira extasiante; e, por isso, o importante era fornecer um aceno através da “temporalidade” para o ser-aí.

"Temporalidade” aqui não é pensada nem em termos “cristãos”, nem em geral no conceito   oposto à “eternidade  "; a não ser que se conceba “eternidade” (o aei) verdadeiramente como determinação ontológica e se questione o que significa essa determinação e seu primado   no interior   da interpretação do ser e em que ela se funda, em que medida constância e presença imperam em geral sobre a relação com o ente enquanto tal.

Mas se o “eterno” só é tomado metafisicamente como uma realidade efetiva   própria, ou se ele é diluído como “ideal” e como “validade  ” de valores  ; e se a “temporalidade” é assim correspondentemente desvalorizada, então toda compreensão de Ser e tempo   se torna de antemão impossível. As tomadas de posição a partir de tal “orientação” possuem uma relação de copertinência juntamente com aquelas orientações que compreendem “ser-aí” precisamente como “presença-à-vista” — existentia   — to estin.

No entanto, na medida em que se mantém o mesmo   teor vernacular e em que “ser-aí” tem em vista algo incomparavelmente diverso do que se designa na expressão “a existência (o ser-aí [1]) de Deus  ” ou, por exemplo, “titio está aí”, por um tempo a palavra   e o conceito são com certeza ambíguos.

Em parte alguma, a não ser no questionamento da essenciação do seer, oferece-se um ponto   de apoio para se conceber o ser-aí, porque o ser-aí é aquilo que é a cada vez apropriado em meio ao acontecimento pelo modo de essenciação do seer mesmo, sem jamais se tornar um “mero” “ente” (propriedade).

Em relação à primeira referência em Ser e tempo, costuma-se observar que aquilo que é aí “apresentado” já tinha sido visualizado antes, já tinha sido pressuposto e que, então, seria exposto posteriormente como se se tratasse de uma pura invenção (como se houvesse algo assim). Pensa-se desmascarar com tal objeção o procedimento em seu cerne como um pseudoempreendimento e não se percebe que com essa referência ao estar previamente concebido do “que precisa ser mostrado” se denomina precisamente aquilo que importa: o projeto. Em parte alguma em Ser e tempo impera a opinião de que o homem poderia ser contemplado fixamente de maneira desprovida de pressupostos e de que um dia, se essa contemplação fosse empreendida de maneira suficientemente ardente e duradoura, o “ser-aí” poderia ser “descoberto”.

A consequência dessa opinião prévia é, então, o fato de se contrapor a essa pretensa “antropologia  ” unilateral uma outra, de se seguir o rastro de pressupostos e avaliações pessoais do autor e só se continuar tolerando o todo   como algo estranho   que, “em seu tempo”, pôde se tornar um dia possível nos 14 anos supostamente questionáveis e sob a influência de uma concepção do homem “característica da cidade   grande”.

Na medida em que sobre esse caminho   se encontram por toda parte unilateralidades e limites do ponto de vista, considera-se essa tentativa como fracassada, antes de poder se colocar mesmo que na esfera mais afastada daquela questão única, em cujo campo de visão seus passos são pensados e ditos.

O ser-aí é o fundamento histórico apropriado em meio ao acontecimento a partir do acontecimento apropriativo da clareira do seer  .

Ser-aí é a ressonância silenciada da voz do acontecimento apropriativo como insistência da tranquilidade  , na qual o peculiar é apropriado em sua propriedade em meio ao acontecimento e o ente é decidido em honra do seer.

O ser-aí só precisa ser fundado insistentemente no acontecimento da apropriação do acontecimento apropriativo, isto é, a partir do seer. Por isso, toda tentativa de conceber o ser-aí prepoderante ou mesmo exclusivamente a partir do homem é insuficiente. O ser-aí é igualmente essencial para o deus e ele é determinado de maneira igualmente essencial pela relação com mundo   e terra, que conservam nele a sua propriedade essencial. Não obstante, no sentido da meditação e da denominação apropriante e acenante, a relação do ser-aí com o homem possui um primado que condiciona o fato de o projeto mais imediato do ser-aí precisar se lançar para além do homem (cf. Ser e tempo). Precisamente por meio daí, porém, já não se pensa mais o homem antropologicamente, isto é, metafisicamente, mas se concebe a partir da compreensão de ser do homem uma compreensão que se desdobre como a custódia da verdade do seer  . Com isso, contra a metafísica como um todo, de maneira igualmente essencial, supera-se toda humanização do homem posta na mera autoafirmação de si mesmo   (a subjetividade).

Se o homem não é mais feito à “imagem e semelhança” do Deus criador judaico-cristão, segue-se daí que ele seria feito, então, à “imagem e semelhança” de si mesmo? De maneira alguma; não, sobretudo se a relação com o seer, se a insistência na verdade do seer, constituir o fundamento essencial do homem. Para o pensar da história do seer, a única consequência é: o homem não é de modo algum feito à “imagem e semelhança” de algo diverso, mas possui uma essência maximamente própria e, em verdade, insigne (por força da referência ao seer); a particularidade de sua essência não significa egoísmo oriundo do posicionamento essencial obstinado, mas pertencimento   ao que há de mais único, o que não conhece como tal elemento único nada diverso que pudesse se mostrar   como seu igual  : pertencimento ao seer. O ser-aí assume concomitantemente a história da fundação da incomparabilidade em termos da história do seer da essência humana. Somente isso permite mesmo a expectativa do deus que, como o último, deixou para trás todas as correspondências ao humano.

O ser-aí é, porque o seer acontece apropriativamente como a ex-portação resolutora, nunca apenas ligada ao homem como o seu fundamento, assim como o “mundo” e a “terra” não permanecem sem ser tocadas pela irradiação essencial do deus. (p. 262-267)

Emad & Kalary

Da-sein   is incomparable, and admits of no perspective within which it could still be lodged as something familiar.

Da-sein forestalls all mania for explanation  . Explanation (calculation  ) can no longer   retain the claim to grasp   being within the clearing that holds unto the ab-ground   and in stillness arises from out of Da-sein; any yielding to the machinational has forfeited the ground and the sustaining domain. Explanation no longer ’says’ anything, it merely gets entangled in the non-being and thus still retains a duration that is long since swept away in itself, while something else already and in a different way has let the truth become the ’time-space  ’ of beings.

[288] How then should Da-sein ever be "explained"? It should not   even be declared unexplainable.

Strictly speaking Da-sein is to be thought be-ing-historically: it is the grounding   that is en-owned by the sway of being as the grounding of that truth that is be-ing’s own   and is the grounding that inabides the knowing  -awareness of be-ing as en-owning.

Therefore, although remotely, yet decisively, there is still the basic interconnection between Da-sein and "understanding   of being

In no respect is Da-sein a determination of a being, neither of an object nor of a subject, nor of a being as such that is somehow thought.

Da-sein belongs solely to the swaying of be-ing that has relinquished beingness, and out of the truth of this swaying comes into knowingawareness and word.

Hence, Da-sein cannot be found   either in a being that is somehow extant, or in man: Da-sein is not demonstrable. It can never be shown and exhibited as an object, just   as little in terms of "lived-experience  ". Therefore, right from the outset, "Da-sein" is to be thought "hermeneutically", that is, only as the projecting  -opening of a distinct projecting-open, namely the projecting-opening of being unto its "meaning  ", that is, unto its truth as clearing.

[G326] Hence, Da-sein can also never be derived from a projecting-opening of ’beings in the whole’ as a projecting-opening that in some ways has to be appropriate to the metaphysical representing.

However, that projecting-opening of be-ing takes the thrower itself along unto the en-opened clearing wherein the thrower recognizes itself as an en-owned thrower. This projecting-open that carries the thrower along and transposes it, enacts in itself a fundamental transformation of the thrower insofar as the thrower is called "man".

Thereupon the guardianship for the truth of being begins.

But why is Da-sein grasped as "temporality"? Because even from the perspective of metaphysics   and indeed from its beginning the ’t/here’ as clearing becomes initially discernible within the swaying of ’time-space  ’. Hereby "time" and "space" do not mean "the place  " and "the sequence" of the series of now, but rather the beforehand unifiedly swaying clearing of being. However, the fact that being resides in such a clearing is borne out by the interpretation of being as ούσία — presencing   and constancy  . Of course, the inquiry into the "Temporality" [Temporalität  ] of ουσία already resides outside metaphysics and can be inquired into [289] only and already from out of the grounding-question concerning the truth of being.

Temporality [Zeitlichkeit] of the ’t/here’, means the clearing that ’removes unto’. That is why what mattered [in Sein und Zeit] was to offer a hint at Da-sein in and through "temporality".

Here "temporality" is thought neither in a "Christian" sense, nor in general as the opposite concept of "eternity", unless one would truly grasp "eternity" (the άεί) as determination of being   and would inquire into what this determination and its preeminence mean within the interpretation of being and wherein this determination is grounded, and to what extent at all constancy and presencing overwhelmingly dominate the relation   to beings as such.

However, if the "eternal" is taken in an exclusively metaphysical sense as an independent actuality  , or if the "eternal" is thinned out as the "ideal" and the "validity" of values and if "temporality" is assessed in concordance with values, then any grasping of Sein und Zeit is in advance made impossible. Positions taken in this "direction" [G327] entirely belong to   those positions that understand   "Dasein" virtually as "extantness" — existentia — το έστιν.

Indeed, within the crossing   the word and the concept of Da-sein have an ambiguous meaning to the extent that we hold on to this word Dasein and insofar as "Da-sein" means something incomparably other than what it means in the phrase "Dasein, that is, existence of God" or what the word da means in Da-sein when we say "the uncle is da, that is, he is here".

There is nowhere a grip for grasping Da-sein other than in the inquiry into the swaying of be-ing itself, because Da-sein, without ever becoming   "merely" "a being" (ownhood  ), is, according to the manner of the swaying of be-ing itself, always the enowned of be-ing.

Considering the early directives in Sein und Zeit that concern   Da-sein, one gladly observes that what "gets established in this work  " is already held in sight, and is already presupposed and is later on demonstrated as pure invention (as if in this domain there could be inventions.) With this objection one believes to have unmasked, as spurious, the core of the undertaking in Sein und Zeit. But one has no inkling that with this allusion to "what \%to be demonstrated" as ’what is grasped-beforehand’ one names precisely that upon which everything depends, that is, the projecting-open. Nowhere in Sein und Zeit does the opinion   prevail that man is something extant that could be gaped at unconditionally; nowhere is it maintained that if this gaping is carried out enthusiastically and long [290] enough, then one day "Da-sein" could be "discovered" in this extant being.

What ensues from this presumption then is that one contrasts this presupposed and one-sided "anthropology" with other anthropologies, and tracks down the author’s personal presuppositions and valuations and tolerates the whole thing   perhaps as the peculiarity which "in its time", that is, in the supposedly questionable 14 years, could only once become possible under the influence of the "metropolitan" conception of man.

Having   in this way put together from all sides the ’one-sidedness’ and ’limitations’ of the standpoint of Sein und. Zeit, one believes oneself to be finished with this work before one could succeed to enter   even the remotest sphere of that unique question in whose purview the stages of this work are thought and said.

[G328] Da-sein is the historical ground of the clearing of be-ing — a ground that is en-owned from out of en-owning.

Da-sein is the reticent counter-resonance   of the tune of en-owning as inabiding the stillness wherein what is of ownhood, [das Eigentümliche] is en-owned in its ownhood and beings are decided to pay tribute to be-ing.

Oz-sein is to be grounded only as inabiding the en-ownment of enowning, that is, from out of be-ing. Therefore, any attempt at grasping Da-sein predominantly or even exclusively with a view towards man remains inadequate. The Da-sein is equally fundamental for god and is equally fundamentally determined by the relation to the world and the earth which preserve   their swaying ownhood in Da-sein. Nevertheless, the relation of Da-sein to man in the sense of an ’owning-to, and hinting’ mindfulness and naming has a preeminence that requires that the immediate projecting-open of Da-sein goes through man   (see Sein und Zeit). But precisely hereby man is already in advance no longer thought anthropologically, that is, metaphysically, but rather is grasped from out of his ’understanding of being  ’ which unfolds itself as the guardianship of the truth of be-ing. In this vein, right from the beginning, and in contrast to the entirety of metaphysics, every ’dis-humanization’ of man through his mere self-assertion (the subjectivity) is overcome.

If man is no longer the "image" of the Judeo-Christian creator-God, does it follow from this that he is then the image of himself? Not at all! Especially not, when the relation to be-ing — the inabiding the truth of be-ing — makes up the swaying ground of man. The only conclusion to be initially drawn for be-ing-historical thinking is this: man is not at all the image of an other [Andere], but he has his most, indeed his distinctly ownmost, by virtue of his relation to be-ing. The ’own-ness’ [Eigenheit] of [291] man’s ownmost is not the self-seekingness of a willful positing of the essence  , but rather belongingness unto be-ing, that is, unto what is most unique, which as such does not know an ’other’ like itself. [G329] All along Da-sein undertakes the history of the grounding of the be-ing-historical incomparability of human being. This alone also guarantees the expectation of god who, as the last one, has left behind all correspondences to what is of the nature   of man.

Just as little as the "world" and the "earth" remain unaffected by the swaying radiation of god, just as little is Dasein — en-owned by be-ing as settlement — ever related only to man as his ground. (p. 288-292)


Ver online : MEDITACIÓN


[1Em alemão, o termo Dasein é tradicionalmente utilizado como o sinônimo de existência no sentido hoje corrente da palavra, no sentido de presença real e efetiva de algo [N.T.].