Murilo Cardoso de Castro

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IDENTIDADE E DIFERENÇA

GA11: homem e ser

quarta-feira 2 de agosto de 2017

        

Ernildo Stein

Se compreendermos o pensar   como a característica do homem  , então refletimos sobre um comum-pertencer que se refere a homem e ser. No mesmo instante   nos surge a questão: que significa ser? Quem ou o que é o homem? Qualquer um vê facilmente que, sem a suficiente resposta a estas perguntas falta-nos o chão em que possamos decidir algo seguro sobre o comum-pertencer de homem e ser. Contudo, enquanto questionarmos desta maneira ficamos presos à tentativa de representar   a comunidade de homem e ser como uma integração e de dispor   esta ou a partir do homem ou a partir do ser e assim explicitá-la. Nisto os conceitos tradicionais de homem e ser formam os pontos de apoio para a integração de ambos.

E que seria se nós, em vez de continuamente representarmos uma coordenação de ambos, para refazer sua unidade  , prestássemos uma vez atenção se e como nesta comunidade está, antes de tudo, em jogo um recíproco-pertencer? Existe até a possibilidade   de entrever, ainda que a distância, o comum-pertencer de homem e ser já na determinação tradicional de sua essência. Até que ponto  ?

O homem é manifestamente um ente  . Como tal, faz parte da totalidade   do ser, como a pedra, a árvore e a águia. Pertencer significa aqui ainda: inserido no ser. Mas o elemento distintivo do homem consiste no fato   de que ele, enquanto ser pensante, aberto   para o ser  , está posto em face dele, permanece relacionado com o ser e assim lhe corresponde. O homem é propriamente esta relação de correspondência, e é somente isto. “Somente” não significa limitação, mas uma plenitude. No homem impera um pertencer ao ser; este pertencer escuta   ao ser, porque a ele está entregue como propriedade. E o ser? Pensemos o ser em seu sentido   primordial   como presentar. O ser se presenta ao homem, nem acidentalmente nem por exceção. Ser somente é e permanece enquanto aborda o homem pelo apelo  . Pois somente o homem, aberto para o ser, propicia-lhe o advento enquanto presentar. Tal presentar necessita o aberto de uma clareira   e permanece assim, por esta necessidade  , entregue ao ser humano, como propriedade. Isto não significa absolutamente que o ser é primeira e unicamente posto pelo homem. Pelo contrário, torna-se claro.

Homem e ser estão entregues reciprocamente um ao outro como propriedade. Pertencem um ao outro. Deste pertencer-se reciprocamente homem e ser receberam, antes de tudo, aquelas determinações de sua essência, nas quais foram compreendidas metafísicamente pela filosofia  .

Este preponderante comum-pertencer de homem e ser é por nós teimosamente ignorado enquanto tudo representarmos em sequências e mediações, seja com ou sem dialética. Então encontramos apenas encadeamentos que ou são urdidos por iniciativa do ser ou do homem e apresentam o comum-pertencer de homem e ser como entrelaçamento.

Não penetramos ainda no comum-pertencer. Como, porém, acontece uma tal entrada? Pelo fato de nos distanciarmos da atitude do pensamento que representa. Este distanciar-se se verifica como um salto  . Ele salta, afastando-se da comum representação do homem como animal rationale  , que na modernidade   tornou-se sujeito   para seus objetos. O salto distancia  -se ao mesmo tempo do ser. Este, entretanto, é interpretado desde os primórdios do pensamento ocidental como fundamento   em que todo o ser do ente   se funda.

Para onde   salta o salto, se se distancia do fundamento? Salta num abismo   (sem-fundamento)? [NT: O salto no abismo, no sem-fundamento (Ab-grund), é o jogar-se no ser, assumir   o pertencer ao ser. Compreende-se isto quando se lê em O Princípio da Razão: ’Ser e fundamento pertencem à unidade. Do fato de fazer parte do ser o fundamento recebe sua essência. E vice-versa, da essência do fundamento surge o domínio do ser enquanto ser. Fundamento e ser (’são’) o mesmo  , não o igual  , o que já indica a diversidade dos nomes ’ser’ e ’fundamento. Ser ’é’ essencialmente: fundamento. Assim, o ser nunca pode primeiro ter um fundamento que o fundamente. O fundamento fica, desta maneira, afastado do ser. O fundamento fica ausente do ser. No sentido de uma tal ausência de fundamento do ser, o ser ’é’ sem-fundamento (ab-grund), abismo. Na medida em que o ser enquanto tal   é fundamento em si mesmo  , permanece ele mesmo sem-fundamento’. (Der Satz   vom Grund, pp. 92-91)]. Sim, enquanto apenas representarmos o salto e isto no horizonte   do pensamento metafísico. Não, enquanto saltamos e nos abandonamos. Para onde? Para lá onde já fomos admitidos: ao pertencer ao ser. O ser mesmo, porém, pertence a nós; pois somente junto a nós pode ele ser como ser, isto é, pre  -sentar-se.

Assim, pois, torna-se necessário um salto para se experimentar o comum-pertencer de homem e ser, propriamente. Este salto é a subitamente da entrada não mediada naquele pertencer cuja missão é dispensar uma reciprocidade de homem e ser e instaurar a constelação de ambos. O salto é a súbita penetração no âmbito a partir do qual homem e ser desde sempre atingiram juntos a sua essência, porque ambos foram reciprocamente entregues como propriedade a partir de um gesto que dá. A penetração no âmbito desta entrega como propriedade dis-põe e harmoniza a experiência do pensar. Estranho   salto, que provavelmente nos convencerá que ainda não nos demoramos bastante ali, onde propriamente já estamos. Onde estamos nós? Em que constelação de ser e homem?

Cortés & Leyte

Al entender   el pensar como lo distintivo del hombre, estamos recordando una mutua pertenencia que atañe al hombre y al ser [v. Parménides]. Al instante nos vemos asaltados por las preguntas, ¿qué significa ser?, ¿quién o qué es el hombre? Todos pueden ver fácilmente que sin una respuesta satisfactoria a estas preguntas, nos falta el suelo sobre el que pudiéramos construir   algo firme acerca de la mutua pertenencia del hombre y el ser. Pero mientras preguntemos de este modo  , quedaremos prisioneros en el intento de representar la dimensión mutua del hombre y el ser como una coordinación, y de integrar y explicar   ésta, ya sea a partir del hombre o desde el ser. Con ello, los conceptos tradicionales de hombre y ser configuran las bases para la coordinación de ambos.

¿Qué ocurriría si en lugar   de representar continuamente sólo una ordenación conjunta de ambos para establecer su unidad, tomásemos por una vez en cuenta de qué modo y si acaso en esta dimensión conjunta está sobre todo en juego una pertenencia del uno al otro? Pues bien, existe incluso la posibilidad de divisar ya la mutua pertenencia de hombre y ser, aunque sólo sea de lejos, en las determinaciones tradicionales de su esencia  . ¿De qué modo?

Manifiestamente el hombre es un ente. Como tal, tiene su lugar   en el todo del ser al igual que la piedra, el árbol y el águila. Tener su lugar significa todavía aquí: estar clasificado en el ser. Pero lo distintivo del hombre reside en que, como ser que piensa y que está abierto al ser, se encuentra ante éste, permanece relacionado con él, y de este modo, le corresponde. El hombre es propiamente esta relación de correspondencia y sólo eso. «Sólo» no significa ninguna limitación, sino una sobreabundancia. En el hombre reina una pertenencia al ser que atiende al ser porque ha pasado a ser propia de él. ¿Y el ser? Pensémoslo en su sentido inicial como presencia. El ser no se presenta en el hombre de modo ocasional ni   excepcional. El ser sólo es y dura en tanto que llega hasta el hombre con su llamada.

Pues el hombre es el primero que, abierto al ser, deja que éste venga a él como presencia. Tal llegada a la presencia necesita de lo abierto de un claro, y con esta necesidad, pasa a ser propia del hombre. Esto no quiere decir de ningún modo que el ser sea puesto sólo y en primer lugar por el hombre; por el contrario, se ve claramente lo siguiente: el hombre y el ser han pasado a ser propios el uno del otro. Pertenecen el uno al otro. Desde esta pertenencia del uno al otro, nunca considerada de más cerca, es desde donde el hombre y el ser han sido los primeros en recibir las determinaciones esenciales con las que la filosofía los entiende de modo metafísico.

Ignoraremos obstinadamente esta mutua pertenencia que prevalece en el hombre y el ser, mientras sigamos representando todo sólo a base de ordenaciones y mediaciones, con o sin dialéctica. De este modo, encontramos siempre conexiones que han sido enlazadas, bien a partir del ser, bien a partir del hombre, y que presentan la mutua pertenencia de hombre y ser como un entrelazamiento.

No nos detendremos todavía en la mutua pertenencia. ¿Pero, cómo podríamos adentrarnos allí?: apartándonos del modo de pensar representativo. Este apartarse hay que entenderlo como un salto que salta fuera de la representación usual del hombre como animal   racional, que en la época moderna llegó a convertirse en sujeto para su objeto  . Al mismo tiempo, el salto salta fuera del ser. Ahora bien, éste ha sido interpretado desde la aurora del pensamiento occidental como el fundamento en el que se funda todo ente en cuanto ente.

¿A dónde salta el salto cuando salta desde el fundamento? ¿Salta a un abismo? Sí, mientras nos limitemos a representar el salto, y en concreto, en el horizonte del pensar metafísico. No, mientras saltemos y nos dejemos ir. ¿A dónde? Allí, a donde estamos ya admitidos: la pertenencia al ser. Pero el ser mismo nos pertenece, pues sólo en nosotros puede presentarse como ser, esto es, llegar a la presencia.

Por lo tanto, para experimentar propiamente la mutua pertenencia de hombre y ser, es necesario un salto, es necesaria la brusquedad de la vuelta sin puentes al interior   de aquella pertenencia que es la primera en conceder la mutua relación de hombre y ser, y, con ello, la constelación de ambos. El salto es la puerta que abre bruscamente la entrada al dominio en el que el hombre y el ser se han encontrado desde siempre en su esencia porque han pasado a ser propios el uno del otro desde el momento en el que se han alcanzado. La puerta de entrada al dominio en donde esto sucede, acuerda y determina por vez primera la experiencia   del pensar.

Extraño salto el que nos hace ver que todavía no nos detenemos lo suficiente en donde en realidad   ya estamos. ¿En dónde estamos? ¿En qué constelación de ser y hombre? (trad. Helena Cortés y Arturo Leyte, p. 72)

Joan Stambaugh

When we understand thinking to be the distinctive characteristic of man, we remind ourselves of a belonging   together that concerns man and Being. Immediately   we find ourselves grappling with the questions: What does Being mean  ? Who, or what, is man? Everybody can see easily that without a sufficient answer to these questions we lack   the foundation for determining   anything reliable about the belonging together of man and Being. But as long as we ask our questions in this way  , we are confined within the attempt to represent the “together” of man and Being as a coordination, and to establish and explain this coordination either in terms of man or in terms of Being. In this procedure, the traditional concepts of man and Being constitute the toe-hold for the coordination of the two.

How would it be if, instead of tenaciously representing merely a coordination of the two in order to produce   their unity, we were for once to note whether and how a belonging to one another first [30] of all is at stake in this “together”? There is even the possibility lhat we might catch sight of the belonging together of man and Being, though only from afar, already in the traditional definitions of their essence. How so?

Man obviously is a being. As such   he belongs to the totality of Being — just   like the stone, the tree, or the eagle. To “belong” here still means to be in the order of Being. But man’s distinctive feature lies in this, that he, as the being who thinks, is open to Being, face to face with Being; thus man remains referred to Being and so answers to it. Man is essentially this relationship of responding to Being, and he is only this. This “only” does not   mean a limitation, but rather an excess. A belonging to Being prevails within man, a belonging which listens to Being because it is appropriated to Being. And Being? Let us think of Being according to its original meaning, as presence  . Being is present to man neither incidentally nor only on rare occasions. Being is present and abides only as it concerns man through the claim it makes on him. For it is man, open toward Being, who alone lets Being arrive as presence. Such becoming   present needs the openness of a clearing, and by this need remains appropriated to human being. This does not at all mean that Being is posited first and only by man. On the contrary, the following becomes clear:

Man and Being are appropriated to each other. They belong to   [31] each other. From this belonging to each other, which has not been thought out more closely, man and Being have first received those determinations of essence by which man and Being are grasped metaphysically in philosophy.

We stubbornly misunderstand this prevailing belonging together of man and Being as long as we represent everything only in categories   and mediations, be it with or without dialectic  . Then we always find only connections that are established either in terms of Being or in terms of man, and that present the belonging together of man and Being as an intertwining.

We do not as yet enter   the domain of the belonging together. How can such an entry come about? By our moving away from the attitude   of representational thinking. This move is a leap in the sense of a spring. The spring leaps away, away from the habitual idea   of man as the rational animal who in modern times has become a subject for his objects. Simultaneously, the spring also leaps away from Being. But Being, since the beginning of Western thought, has been interpreted as the ground in which every being as such is grounded.

Where does the spring go that springs away from the ground? Into an abyss? Yes, as long as we only represent the spring in the horizon of metaphysical thinking. No, insofar as we spring and let go. Where to? To where we already have access  : the belonging to [32] Being. Being itself, however, belongs to us; for only with us can Being be present as Being, that is, become present.

Thus a spring is needed in order to experience   authentically the belonging together of man and Being. This spring is the abruptness of the unbridged entry into that belonging which alone can grant   a toward-each-other of man and Being, and thus the constellation of the two. The spring is the abrupt entry into the realm from which man and Being have already reached each other in their active nature  , [1] since both are mutually appropriated, extended as a gift, one to the other. Only the entry into the realm of this mutual appropriation   determines and defines the experience of thinking.

What a curious leap, presumably yielding us the insight that’we do not reside sufficiently as yet where in reality we already are. Where are we? In what constellation of Being and man?


Ver online : IDENTITY AND DIFFERENCE


[1Heidegger’s term is “Wesen.” It is used in the verbal meaning of φμσι$ rather than the more static meaning of nature or essence. (Tr.)