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CONFRONTO DE HEIDEGGER COM A MODERNIDADE

Zimmerman: A Metafísica Produtivista

Introdução

domingo 22 de outubro de 2017

        

ZIMMERMAN  , 2001 p. 27-30

A nossa época não é a da idade tecnológica porque é o tempo   da máquina, é antes o tempo da máquina porque é a da idade tecnológica. [WDH: 54/24]

        

Este livro discute o modo   como um grande filósofo do século xx, Martin Heidegger, interpretou e avaliou a tecnologia moderna. Para Heidegger, a «tecnologia moderna» tem três significados inter-relacionados: primeiro, as técnicas, os instrumentos, sistemas e processos de produção geralmente associados com o «industrialismo»; depois, a visão do mundo   racionalista, científica, mercantilista, utilitarista, antropocêntrica e secular, geralmente associada com a «modernidade  »; finalmente, o contemporâneo «modo de compreender   e de revelar as coisas  », o qual torna possível tanto os processos de produção industrial, como a visão modernista do mundo. Segundo Heidegger, o terceiro significado   de «tecnologia moderna» é extremamente importante.

Tanto o industrialismo como a modernidade são sintomas da revelação contemporânea das coisas, enquanto matéria-prima a usar para expansão e benefício próprio do escopo do poder tecnológico. Na visão de Heidegger, esta revelação unidimensional das coisas como matéria-prima resultou, não tanto de decisão humana, mas antes de desenvolvimentos dentro da própria «história   do ser», enquanto tal  . O estágio tecnológico dessa história, de tal modo transformou o modo como as coisas são compreendidas, que as pessoas se viram mais ou menos compelidas a tomar parte na ordem industrial, e a adoptar a visão modernista do mundo, com tal ordem relacionada.

Neste trabalho, o significado mais relevante de «tecnologia moderna» será sempre o da revelação contemporânea das coisas como matéria-prima. O leitor, todavia, deverá manter em atenção que «tecnologia moderna» também significará o industrialismo e a visão do mundo tornados possível por essa revelação. Por vezes e por necessidade   de maior clareza, usarei o conceito   «tecnologia industrial» para me referir especificamente àqueles processos industriais e instrumentos técnicos elicitados pela revolução tecnológica das coisas.

[27] O entendimento   de Heidegger, de que a moderna tecnologia é um meio de revelação das coisas, pode ser clarificado quando inserido no contexto da história da filosofia   alemã. Do mesmo modo que Kant  , Heidegger acreditava que a tarefa do filósofo era a de descobrir   as condições transcendentais que tornaram viável o conhecimento   e a acção Humanos. Estas condições não são «coisas» em si   próprias, mas antes tornam possível a nossa «experiência» objectiva das coisas1. Na sua análise à tecnologia moderna tentou Heidegger descobrir as condições necessárias à possibilidade   de uma nossa experiência unidimensional das entidades como matéria-prima. Tal como Hegel  , Heidegger sustentava que as actividades humanas não são na sua maior parte auto-referenciais e autogeradoras, mas bem pelo contrário, guiadas e moldadas pela «interacção» histórica da linguagem   e dos conceitos, que não está sob controlo humano. Esta interacção conceptual-linguística determina as categorias   que moldam as possibilidades de conhecimento, de acção e de crenças humanas, em épocas históricas especificadas.

Embora seja certo que Heidegger rejeita o ensinamento de Hegel de que a história é um movimento   progressivo em direcção à consciência divina de si próprio, os dois pensadores tentaram descobrir a natureza   dos «movimentos» conceptuais e ontológicos que marcaram as diferentes épocas históricas em que a humanidade ocidental tem sido «lançada».

Heidegger acreditava que estes movimentos, que moldam as épocas históricas, não eram em si próprios visões do mundo, mas antes condições ontológicas necessárias ao emergir de uma específica visão do mundo. Para Heidegger, pois, a visão do mundo chamada de «modernidade» não era de modo algum um conceito definitivo para explicar   a situação contemporânea, mas era antes o sintoma de um movimento mais profundo e tornado invisível.

Sustentava ele que o movimento destas épocas históricas principiou com a metafísica de Platão e culminou na era tecnológica. Os períodos maiores da história ocidental — grego, romano, medieval, iluminismo, tecnológico — marcam, na perspectiva de   Heidegger, os estágios de um longo «declínio» em matéria de compreensão pela humanidade ocidental do que significa alguma coisa, «ser».

Na idade tecnológica, especialmente, «ser» significa para alguma coisa, o consistir em matéria-prima para o sistema   tecnológico de auto-engrandecimento.

A interpretação de Heidegger sobre tecnologia moderna difere radicalmente da interpretação, muito mais familiar, da antropologia   naturalista. De acordo com tal antropologia, a capacidade de consciência é um desenvolvimento evolucionário, que tornou o animal  -homem   especialmente adaptável a uma vasta variedade de climas e de condições materiais. A espécie humana sobreviveu por ter aprendido como fazer e usar utensílios e símbolos. Sob a perspectiva de tal antropologia, a moderna tecnologia industrial é apenas uma vers  ão sofisticada dos utensílios da humanidade primeva. A grande diferença, entre   a primitiva e a posterior tecnologia, é apenas a de que os utensílios mais recentes são concebidos e construídos em conformidade com os princípios científicos, desconhecidos em períodos anteriores da vida   do homem.

Heidegger sustentou que esta visão naturalista e instrumentalista da tecnologia tem uma validade   bastante limitada. Ele contestou as presunções sobre o «animal hábil» ao recusar-se a conceber o homem como mero animal dotado de mais elevada inteligência. Rebatendo o argumento de que a tecnologia industrial emergiu da experimentação histórica, por tentativa e erro com práticas materiais, ele sustentou, pelo contrário, que a tecnologia industrial surgiu em resultado do modo unidimensional de compreender o que é «ser» uma coisa. Segundo Heidegger, para alguma coisa «ser» significa para ela «ser revelada» ou «ser manifesta».

Em qualquer dada época, o comportamento   humano é moldado pela maneira como as coisas se manifestam a si próprias. Se as coisas se manifestam como criaturas de Deus  , as pessoas tratam as coisas de certa maneira; se as coisas se manifestam como nada   mais do que matéria-prima, as pessoas tratam-nas de outro modo.

A preocupação de Heidegger, relativamente ao modo tecnológico de compreender as coisas, estava inteiramente ligado com a sua investigação pessoal de toda a vida, sobre «o ser   dos entes  ».

Por «ser» não significava ele um eterno «fundamento  » para os entes, semelhante às formas de Platão ou do Deus cristão. Pelo contrário, ele definiu o «ser» como a síntese dos meios que moldam a história segundo a qual os entes se revelam a si próprios. Um dos seus principais objectivos tornou-se o de entender a natureza e o carácter do processo através do qual o «ser-dos-entes» se alterou no decurso dos séculos. Ele chegou à conclusão de que a compreensão unidimensional, tecnológica, do ser dos entes como o estágio final de uma história iniciada não há dezenas de milhares de anos, durante a humanidade pré-histórica, mas muito mais recentemente, na Antiga Grécia. Segundo Heidegger, a história do Ocidente   é a história de como a «metafísica produtivista» dos antigos gregos, gradualmente degenerou em tecnologia moderna. Porque a era tecnológica surge no final desta história da metafísica, os comentadores de Heidegger nem sempre reconheceram o papel principal que a questão da «tecnologia» representa, por si própria, nessa história.

Mas Heidegger sustentava, de facto, que a era tecnológica foi antecipadamente representada desde os primórdios da história da metafísica. Efectivamente, assim acreditava ele, a moderna tecnologia foi o produto invitável [29] dessa história. Os fundadores gregos da metafísica definiram o ser dos entes em termos prototecnológicos, já que, para eles, «ser» significava «ser produzido». Daí que, segundo Heidegger, a história da metafísica se tivesse transformado na história do desenrolar da metafísica «produtivista». A compreensão tecnológica do ser, a perspectiva segundo a qual todas as coisas nada mais são do que matéria-prima para o ininterrupto processo de produção e de consumo, meramente representa o estágio final da história da metafísica produtivista. Heidegger considera Platão como   o iniciador desta metafísica por, fascinado com a capacidade do homem para fazer e produzir  , Platão haver concebido o ser dos entes em termos inspirados na capacidade manufacturadora humana. De facto, sustentava Heidegger, o seu conceito de «forma» ideal — aquela que é eternamente presente e finalmente real   — derivou do papel desempenhado pelo paradigma ou molde, do trabalho do art  ífice. Do mesmo modo que o molde do artífice lhe propicia a estrutura   para as coisas que ele faz, assim também a eterna forma proporciona a estrutura para as coisas que emergem como «ser» no mundo empírico-temporal  . Platão considera a forma eterna e não empírica como sendo a inalterável, permanentemente presente, fundamentação ou base para as coisas. De tal maneira que havia de provar-se decisiva para toda a história da metafísica produtivista, ele pressupôs que para coisa alguma «ser», ela tem de assentar nalguma «derradeira» fundação. A metafísica produtivista tornou-se também, portanto, uma metafísica fundacionalista.


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