Murilo Cardoso de Castro

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Inwood: Hermenêutica

segunda-feira 29 de maio de 2017

        

Heidegger faz um breve histórico de Hermeneutik  , "hermenêutica", em GA63  , Ontologia  : a hermenêutica da facticidade  . Ele começa com o Ion de Platão, onde Sócrates chama os poetas   de "intérpretes", hermenes, dos deuses   (Ion, 534e4-5). Hermeneuein é a palavra   grega para "interpretar", e hermeneia, "interpretação", Auslegung  , que descobre o previamente escondido (GA63, 11). Hermeneutik não é, atualmente, interpretação e, sim, teoria   ou estudo da interpretação. Esta disciplina foi sistematizada por Schleiermacher como "(a teoria da) arte   da compreensão [Kunst(lehre) das Verstehens]", primordialmente de textos escritos (GA63, 13). Dilthey  , biógrafo de Schleiermacher, estendeu a hermenêutica às "ciências humanas [Geisteswissenschaften  ]", que incluem a filologia, mas também o estudo da história  , teologia, arte, instituições sociais etc. A hermenêutica é, agora, a metodologia  , o estudo do método, de tais ciências. Heidegger usa Hermeneutik para significar   "interpretação", interpretação da " facticidade", isto é, de nosso próprio dasein   (GA63, 14). Esta tarefa filosófica é um desenvolvimento do que o Dasein cotidiano   faz. Dasein, essencialmente, interpreta a si mesmo   como, por exemplo, um soldado, e tal interpretação de si torna Dasein o que ele é (GA63, 15). Não que Dasein sempre interprete a si mesmo autenticamente: "Dasein fala de si mesmo, mas é apenas uma máscara que usa para si mesmo, com o intuito de não apavorar a si mesmo"; assim fazendo, Dasein adota a interpretação do impessoal   (GA63, 32). O ser   está essencialmente escondido sob a tradição. Precisamos, assim, de uma "destruição [Abbau  ] da tradição" (GA63, 71). "Hermeneutik ist Destruktion" (GA63, 105). Interpretar a vida   humana é como interpretar um texto recoberto por séculos de exegese distorcida. Precisamos estar certos de que nossa "posição prévia [Vorhabe  ]", nossa aproximação preliminar, é "original e genuína", e não adotada da tradição ou do impessoal (GA63, 80). A posição prévia, visão prévia e concepção prévia pressupostas pela interpretação também são chamadas de hermeneutische Situation  , de situação hermenêutica (GA61  , 3, 187; GA17  , 110, 115; Sein und Zeit  , 232).

Heidegger argumenta que, em seu discurso, a hermenêutica abarca outros sentidos: 1. É, primordialmente, interpretação, "desvelando o sentido   [Sinn] do ser e as estruturas básicas de Dasein". 2. Já que a hermenêutica no sentido 1 "apresenta o horizonte   para qualquer outro estudo ontológico dos entes   que não são do tipo de Dasein, também há hermenêutica no sentido de Schleiermacher": ela elabora as condições de possibilidade   de qualquer investigação ontológica". 3. A prioridade ontológica de Dasein sobre os outros   entes depende da sua possibilidade de existência. Assim, ao interpretar o ser de Dasein, a hermenêutica no sentido 1 precisa analisar a "existencialidade   da existência". Este sentido da "hermenêutica" é "filosoficamente primordial  ": a filosofia   parte da "hermenêutica de Dasein", já que todo questionamento filosófico surge da existência e para ela retorna, (Sein und Zeit  , 38,436). 4. A "hermenêutica de Dasein" "ontologicamente prepara a historicalidade [Geschichtlichkeit  ] de Dasein como a condição ôntica da possibilidade da história [Historie]". Então, a "metodologia das ciências históricas" enraíza-se na hermenêutica no sentido 3. Este é um sentido derivativo de "hermenêutica", cf. o sentido de Dilthey (Sein und Zeit, 37s).

Depois de Sein und Zeit, Heidegger raramente refere-se à "hermenêutica". Retorna para este assunto em A Caminho   da Linguagem   (GA12   95ss). Seu interesse pela hermenêutica surgiu da sua preocupação com a relação entre   a "palavra" da Bíblia e a teologia especulativa, que é, ele agora percebe, uma forma velada da relação entre   a linguagem e o ser (96). Considerando a sua associação com Hermes, o mensageiro dos deuses, a hermenêutica significa primeiramente "não a interpretação, mas antes trazer not  ícias e uma mensagem" (122). Hermenêutica já não concerne a Dasein e à sua existência, mas ao ser, ou antes ao "vigor   do vigente [Anwesen des Anwesenden], i.e., à duplicidade do dois na sua unidade  . [...] O homem   assim se essencializa como homem ao responder   ao apelo   da duplicidade e ao revelar a sua mensagem. [...] Assim, o que prevalece e mantém a relação do homem com a duplicidade é a linguagem. A linguagem determina a relação hermenêutica" (122). A linguagem assume   maior importância quando diminuiu o interesse de Heidegger pela significação mundana (cf. 137s).


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